Presidente do Directors Guild of America, cineasta alerta para riscos à indústria, à experiência cinematográfica e às condições de trabalho de diretores
Christopher Nolan, diretor da trilogia The Dark Knight e um dos maiores defensores do cinema exibido nas grandes salas, voltou a acender o debate sobre o futuro da indústria audiovisual. Em entrevista à Variety, o cineasta revelou ter “preocupações muito significativas” em relação à planejada aquisição da Warner Bros. Pictures pela Netflix, um movimento que pode redefinir os rumos de Hollywood.
Além de estar prestes a lançar A Odisseia nos cinemas neste verão, Nolan assumiu recentemente a presidência do Directors Guild of America (DGA), sindicato que representa mais de 20 mil diretores. Na nova função, ele se vê diante de desafios complexos, que vão do avanço da inteligência artificial até a consolidação de grandes estúdios sob o comando de plataformas de streaming.
“A perda de um grande estúdio é um golpe enorme”, afirmou Nolan, destacando que uma fusão dessa magnitude gera incertezas profundas para o setor. Segundo ele, ainda faltam clareza e compromissos concretos sobre como a Warner Bros. seria administrada dentro de um possível conglomerado liderado pela Netflix.
Um dos pontos centrais da discussão envolve a janela de exibição nos cinemas. Atualmente, a Netflix defende um período de 45 dias antes de levar seus filmes ao streaming, enquanto a DGA pressiona por pelo menos 60 dias. Para Nolan, essa janela se tornou um símbolo do papel que a Warner Bros. poderá desempenhar no futuro: seguir como uma distribuidora focada na experiência teatral ou ser absorvida de vez pela lógica do streaming. Ainda assim, ele ressalta que as questões ligadas à televisão e às plataformas digitais têm impacto ainda maior para os profissionais representados pelo sindicato.
O diretor também comentou a proposta do presidente Donald Trump de impor uma tarifa de 100% sobre filmes produzidos fora dos Estados Unidos. Embora tenha demonstrado ceticismo quanto à viabilidade prática da medida, Nolan reconheceu que o debate reacendeu conversas mais sérias dentro dos estúdios sobre como tornar o país mais competitivo na atração de produções. Para ele, um caminho mais eficaz seria a criação de um incentivo federal de 25%, cumulativo com benefícios estaduais, capaz de rivalizar com os pacotes oferecidos por outros países.
O cenário atual de Hollywood é marcado por incertezas, especialmente diante da migração crescente do público para o consumo de filmes em casa. Nesse contexto, a possível fusão entre Netflix e Warner Bros. pode acelerar a consolidação do streaming como principal forma de acesso ao cinema — algo que preocupa Nolan, conhecido por sua defesa apaixonada da tela grande.
Como presidente da DGA, o cineasta também enfatiza a importância de proteger os direitos e a remuneração dos diretores, em um momento em que os estúdios buscam reduzir custos diante da queda nas receitas de bilheteria. Para Nolan, o futuro do cinema passa não apenas pela tecnologia, mas pela preservação de uma indústria que valorize tanto a experiência do público quanto o trabalho de seus criadores.
