Se você é do tipo que já está de saco cheio de filmes sobre vida fora da Terra, extraterrestres e o impacto disso na humanidade, talvez Dia D realmente não seja para você. Mas se a pergunta “Estamos sozinhos?” ainda arrepia a sua espinha, se prepare: Steven Spielberg está de volta para bagunçar ainda mais a sua cabeça e, claro, nos fazer refletir.
Desde que o mundo é mundo, a gente se faz as mesmas perguntas: “Estamos sozinhos aqui?”, “de onde viemos?”, ”para onde vamos?”. Convenhamos, em uma galáxia infinita que não conhecemos nem 1% de sua imensidão, seria até loucura dizer que só existe vida aqui na Terra, somente a vida que conhecemos.
“Dia D” (originalmente Disclosure Day – Dia da Revelação) parte exatamente dessa premissa. Só que ele não questiona se realmente existem alienígenas. Ela já parte do princípio de que sim, eles existem e estão entre nós há pelo menos meio século.
E vai muito além: E se esses seres não humanos já tentaram algum contato conosco muitos anos antes? E se os governos nos escondem isso por pelo menos 100 anos? E se, amanhã, a verdade simplesmente explodir?
Com certeza, uma das falas do filme é direcionada ao público:
“Se você descobrisse que a gente não está sozinho, se alguém te mostrasse, provasse para você, você ficaria com medo?”
Elenco respeitado
No centro de tudo isso, está Emily Blunt (Margareth Fairchild), interpretando uma jornalista escolhida pelos próprios alienígenas para transmitir uma mensagem à humanidade. É uma daquelas atuações que nos fazem lembrar por que ela é uma das melhores de sua geração – completamente intensa, contida e explosiva no momento certo.
Ao seu lado, está o ator Josh O’Connor (Daniel Kellner), que vive um homem que compreende o “recado” antes de todo o mundo. Ele é o elo perdido entre a verdade e o pânico coletivo. O’Connor entrega essa obsessão pela verdade com um brilho raro nos olhos que dá até gosto de ver.

O elenco ainda é um espetáculo à parte. Colman Domingo (Hugo Wakefield) atua com perfeição, nos fazendo esquecer que há pouco ele fez Joseph Jackson no filme “Michael”. Colin Firth (Noah Scanlon), Eve Hewson (Jane Blakenship) e Wyatt Russell (Jackson) completam esse time de peso. Chega a ser injusto ter tantos talentos em um filme só.
E, claro, a cereja do bolo fica por conta de John Williams com a belíssima trilha sonora que nos desperta diversos sentimentos em questão de segundos. Se eu fosse você, eu até separaria um lenço e uma garrafa d’água quando for assistir a esse filme.
Qual a novidade que Spielberg nos traz?
Spielberg já nos deu inúmeras provas inabaláveis de seus trabalhos. Nos deu a espiritualidade em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1999)”, a ternura doméstica de “E.T. (1982)” e o horror de uma invasão em “Guerra dos Mundos (2005)”. Cada um desses clássicos trabalhava uma coisa em comum: a incerteza. Os aliens são como um espelho do que os humanos mais temem e mais desejam ao mesmo tempo.

“Dia D” abandona toda essa incerteza como de fato um motor narrativo. A existência de alienígenas já é um fato dado logo no início da ficção. O conflito real de agora é mais institucional e humano: Quem guardou esse segredo? Por quê? E o que acontece quando a verdade não pode ser mais escondida?
Isso aproxima o filme de um thriller político até – e é um terreno onde o roteirista David Koepp, parceiro de longa data de Spielberg, tem histórico sólido. A fotografia – belíssima, diga-se de passagem – está por conta de Janusz Kaminski.
Inclusive, em uma entrevista recente à ABC, Spielberg soltou uma bomba de forma leve: “É o primeiro filme que será considerado ficção científica que eu não considero ficção científica. Ele reflete o mundo em sua evolução e as descobertas que estão sendo feitas nesse exato momento.”
Ou seja, o velho mestre nos dizendo, com todas as letras e pontos, que esse negócio de “extraterrestres” pode não ser uma mera invenção da sua cabeça. E se descobrirmos que realmente há vida fora da Terra e que esses seres querem contato conosco, como seria a nossa reação? Como seria a sua reação? Aceitaríamos essa visita e amizade ou faríamos assim como fazemos com pessoas que são minimamente diferentes de nós? Seja de cor, religião, orientação sexual. No final, para os extraterrestres o que nós seríamos?
Veredito
“Dia D” estreia dia 11 de junho nos cinemas brasileiros. É Spielberg em um dos seus melhores momentos: emocionante, assustadoramente atual e com aquele brilho nos olhos de quem nunca perdeu a curiosidade de criança – que todos nós temos desde que nos conhecemos por gente. Não espere naves destruindo cidades, nem os alíens como vilões. Espere apenas um espelho apontado para a humanidade. E a resposta, infelizmente, pode não te agradar.
Nota 5/5
