Aqui (Here, 2024) é, antes de tudo, um reencontro após três décadas do diretor Robert Zemeckis com Tom Hanks (cuja parceria é mais constante) e Robin Wright, trio do clássico Forrest Gump (1994). O longa é uma adaptação cinematográfica da graphic novel homônima de Richard McGuire. A história em quadrinhos original de 6 páginas foi publicada em 1989, mas em 2014 tornou-se uma graphic novel de 304 páginas.
Para discutir o longa é interessante retomar, em especial, Forrest Gump – não por conter o mesmo trio, mas para estabelecer alguns paralelos, antes de delinear as suas idiossincrasias. O longa de 1994, ao mesmo tempo em que conta uma história profundamente pessoal, consegue se expandir para narrar grandes acontecimentos históricos e sociais. Zemeckis usa a vida do simples e ingênuo Forrest para narrar um panorama social, político e cultural, com uma sensibilidade que envolve o espectador.
Enquanto o pano de fundo do filme é uma grande e turbulenta história nacional, o longa se destaca por usar o olhar de seu protagonista para contar esses momentos, muitas vezes de maneira tangencial. O que Zemeckis faz de forma brilhante é usar esse olhar micro, com foco em um indivíduo, para traduzir os grandes eventos sociais e históricos de uma maneira que parece orgânica.
Esse tipo de interação com a história, que se mistura com o cotidiano de pessoas comuns, é o que dá ao filme sua grande profundidade e relevância emocional. Ele faz com que o espectador reflita sobre como esses eventos foram vividos pelas pessoas comuns e como as suas vidas, em sua simplicidade, também são parte desses grandes movimentos. Tudo isso foi tratado com um toque de ternura, uma delicadeza que nunca deixa de surpreender, quando reassistido.

A Micro-História e a Longa Duração
Essa mesma ternura e delicadeza são os elementos centrais constitutivos de Aqui, assim como a sua abordagem micro. O grande diferencial é a escala: no longa de 1994 o micro assume o sentido de contar a história do protagonista, mas esta o leva longe, literalmente. Em Aqui, uma história micro não poderia assumir um sentido mais literal quando em termos espaciais, pois o longa se passa em um único recorte espacial de poucos metros quadrados.
Concomitantemente, em termos temporais o filme lida com a longa duração. Estes são dois conceitos historiográficos que pode-se dizer que o longa pega emprestado. Assim como existe a micro-história, fundada por Giovanni Levi e Carlo Ginzburg na Itália e assumindo novos contornos no Brasil sob influência de Vainfas; há a história da longa duração, fundada por Fernand Braudel na Escola dos Annales.
Ambas são contrapontos à história tradicional, de formas bem distintas. A primeira se afasta da ideia de uma História Geral, ao considerar narrativas que levam em consideração a subjetividade e o cotidiano de recortes muito pequenos, como as vidas de indivíduos anônimos (antítese ao conceito da história dos grandes heróis). A segunda, por sua vez, valeu-se da longa duração para estudar uma história que não fosse apenas política. Um grande exemplo de seu uso foi por parte de Jacques Le Goff, para abordar a Longa Idade Média.
Ainda que ambas as formas história batam de frente com a história tradicional, entre si elas se diferem, pois a longa duração vai de encontro à abordagem da micro-história. Essa bela contradição e concordância simultâneos são do mesmo teor que as presentes em Aqui.

Poética do Espaço-Tempo
O longa é muito parecido com Forrest Gump em termos de tom, de sensibilidade e da abordagem individualista que tem como pano de fundo uma história macro. No entanto, não poderia ser mais diferente do que este, que leva o personagem de Tom Hanks para diferentes cantos do mundo, em um vasto recorte geográfico. Ao mesmo tempo, o filme de 1994 conta “poucos anos” da vida de um indivíduo (ele ainda é jovem quando a história termina); enquanto o de 2024 narra acontecimentos desde a era dos dinossauros até o mundo posterior ao Covid-19.
Ao subverter essa proporção de espaço e tempo, Zemeckis visa inverter os polos e atingir os mesmos sentimentos – o que realiza com maestria. A ideia central gira em torno da exploração do conceito de “aqui”, ou seja, o espaço físico e emocional onde as relações se formam e se transformam.
A narrativa de Aqui é centrada em um único ponto no espaço – uma sala -, e como este se transforma ao longo do tempo, apresentando diferentes momentos históricos e experiências pessoais. O filme utiliza a premissa do romance gráfico de McGuire para explorar a ideia de que o tempo não é linear, mas fragmentado e caleidoscópico. A trama não segue uma sequência convencional, mas se desvia por diferentes épocas e momentos, numa reflexão sobre como o espaço e o tempo interagem com as experiências humanas e as memórias.
A história é contada de forma não linear, mostrando a mesma localização em diferentes períodos, passando por várias transformações. A família principal são os Young: os pais de Richard (Tom Hanks), Al e Rose (Paul Bethany e Kelly Reilly), e sua esposa, Margaret (Robin Wright).
O filme se preocupa em refletir sobre como nossa percepção do passado e do futuro é moldada pelas interações com o espaço físico, e como as memórias e eventos, muitas vezes, entrelaçam-se, e formam uma teia complexa de vivências. A ideia de explorar diferentes momentos no tempo e no espaço em um único ambiente exigiu o uso de técnicas de filmagem inovadoras.
O resultado? Uma atmosfera visualmente e poeticamente deslumbrante. Isso porque o longa faz uso de mudanças dinâmicas de perspectiva para refletir a transformação do espaço ao longo das décadas, em um tipo de fluxo temporal exatamente nos mesmos moldes imagéticos da graphic novel original. Essa abordagem visual inovadora na sétima arte ajuda a transmitir a experiência subjetiva do tempo e como ele se mistura com a nossa memória e percepção de eventos.

Sussurro Visual dos Quadros e Transições
Esse uso inventivo da linguagem visual, inspiradíssimo no material base da nona arte, foi responsável por inúmeros momentos de beleza em variados sentidos. Um exemplo significativo está numa cena contemporânea, na época da pandemia do Covid-19, quando o casal Harris, que vive na casa, está conversando fora do enquadramento, mas aparece no espelho de um móvel disposto na sala, à direita. Um quadro, como de histórias em quadrinhos, é sobreposto no canto também direito do espelho, e mostra um outro casal (os protagonistas, Richard e Margaret, vividos por Hanks e Wright) tendo uma DR.
Enquanto isso, outro quadro se sobrepõe ao lado esquerdo da sala, mostrando o personagem de Paul Bethany, Al, repousando enquanto o casal discute fora do plano. A questão é que não havia espelho no tempo pretérito de Richard, Margaret e Al; apenas no do casal Harris, do presente. Esse fluxo temporal não é apenas inventivo, mas traz poesia à mensagem passada. Não é mero capricho.
O mesmo ocorre adiante, quando uma personagem já falecida aparece novamente, jovem, sem aparente motivo, em um único quadro do passado, e pergunta “Por que estou aqui? Por que vim aqui de novo?”. Essa metalinguagem faz, ainda, sutil referência à frase de início da graphic novel.
Esse fluxo também funciona sem os quadros sobrepostos, mas por meio de simples cortes tradicionais. Em dado momento, um grupo de pesquisadores de arqueologia batem à porta da família Young e pedem licença para conversar a respeito sobre estudar aquele espaço. Há uma narrativa de ameríndios pré-colonização que viviam naquele mesmo espaço, mas a céu aberto, na floresta. É a história de um outro casal, mas que não se comunica verbalmente. Quando o tempo avança e há um funeral, um objeto faz parte do elemento ritualístico. Adiante, os pesquisadores encontram o artefato, numa significativa descoberta.

História, Memória e Cotidiano
É em meio a esse amontoado de cotidianos delicadamente dispostos em tela que o longa conta a sua única história: a experiência humana. O filme questiona como nossas memórias se conectam e se transformam, e de que forma o espaço físico é alterado pelas ações humanas ao longo das gerações. Ele aborda questões universais, como o amor, a perda e a passagem do tempo, de uma forma poética e sensível.
Isso porque é precisamente o tom de um amontoado de cotidianos que dá peso a linhas de diálogo ou enquadramentos que não teriam peso se apresentados de forma focal, sob uma narrativa e uma linguagem cinematográfica tradicionais. Uma das cenas mais impactantes do filme se dá quando os Harris, um casal negro, estão conversando com o seu filho sobre o que ele deve fazer se, ao dirigir, for abordado por um policial. Eles são claramente uma família de classe social mais abastada; e a tensão com a qual o pai fala para o filho mostrar as mãos o tempo todo, e falar calmamente onde estão os documentos do carro, ganha muito mais peso, uma vez que a cena anterior estava contando qualquer outra coisa.
Quanto à narrativa da família principal, os Young, que o filme conte-a por si só; pois, na verdade, tudo o que foi disposto até aqui é sobre eles, e ao mesmo tempo sobre qualquer um de nós. Sobre como deixamos de fazer as coisas que queríamos e a vida passa, mas ao mesmo tempo acontece. Sobre os mais simples sentimentos, como “eu achava que me preocupar impediria coisas ruins de acontecerem”.
Se há algum equívoco a ser apontado sobre Aqui, e que deve abrir precedente para uma regra em Hollywood, é utilizar duas músicas já tocadas em Guardiões da Galáxia. Vamos estabelecer o limite de uma só, ok? No mais, este longa, quando posto próximo de filmes como A Substância, só reforça o valor de cineastas e intérpretes da velha guarda, e como ainda têm muito a dizer – isso sem deixar de inovar, e provando que é possível fazer isso com delicadeza, sem vulgaridades. O espaço para a criatividade é muito maior do que o de uma sala de estar, e que a sétima arte ainda possa se lembrar disso por mais algum tempo.
Nota: 5/5
