Existem duas formas conhecidas de se gerar filhos. A primeira, mais convencional, consiste na reprodução humana, por meio da fecundação do óvulo. O Professor Utônio escolheu a segunda, quando criou a sua fórmula para gerar as Meninas Superpoderosas, a partir da mistura de açúcar, tempero e tudo que há de bom com o Elemento X.
De forma semelhante, há duas formas sabidas de se criar uma narrativa e vendê-la. Na primeira, você transcreve da sua mente para o “papel” todas as suas ideias, e passa a aprofundá-las, refiná-las. Em meio ao processo, recorre a referências de narrativas já consolidadas — desde a Jornada do Herói a detalhes mais específicos, como a semelhança das Horcruxes de Voldemort com o Um Anel de Sauron.

Os irmãos Matt Duffer e Ross Duffer, ao desenvolver Stranger Things, parecem haver escolhido a segunda opção: recolher da cultura pop um estilo de filmes — que vão de E.T. – O Extraterrestre (1982) e Os Goonies (1985) a Gremlins (1984) e De Volta para o Futuro (1985), por exemplo —, pegar emprestada a lore de Stephen King, e utilizar (mais do que metáforas) comparações diretas e explícitas com Dungeons & Dragons (e a linguagem do RPG em geral) para tornar essa lore (que necessitaria de dezenas de livros para ser amplamente desenvolvida) facilmente assimilada pela audiência.
Como molho especial, uma trilha sonora composta de sucessos da época, já filtrada pela História recente da música e da cultura pop. No entanto, temos até aqui a massa e a cobertura, mas falta o recheio: o melodrama. Este é o primeiro verdadeiro mérito dos irmãos Duffer, Shawn Levy, Paul Dichter, Jessie Nickson-Lopez, Kate Trefry, Curtis Gwinn e Justin Doble.

Na narrativa, o melodrama é uma estética que enfatiza emoções intensas, conflitos morais claros e situações extremas, com o objetivo de provocar forte impacto emocional no público. Em vez de sutileza psicológica, o melodrama aposta no excesso emocional, explorando sentimentos como amor, sofrimento, perda, culpa, sacrifício e redenção de maneira clara e direta.
O segundo verdadeiro mérito está na seleção de um elenco, expandido ao longo de cada temporada, que entregue atuações em nível de excelência, que sustentem as mais diversas emoções e verborragia; e transportem para a tela a estrutura novelesca do melodrama presente no texto.
Toda a receita que definiu Stranger Things ao longo dos últimos dez anos foi retomada mais uma vez para manter o status quo da tão aguardada temporada final da série. Mesmo com alguns problemas no roteiro e no ritmo, as performances ainda seguram o apelo humano da série — a conexão entre os personagens e a capacidade de transmitir drama, amizade e perigo permanecem fortes, especialmente nos momentos mais intensos da narrativa.

O elenco reúne os veteranos que acompanharam a série desde o começo e também novos nomes adicionados para o capítulo final. Entre os protagonistas está Winona Ryder, que retorna como Joyce Byers, ao lado de David Harbour no papel de Jim Hopper, e Millie Bobby Brown como Eleven, que continuam no centro da trama emocional e sobrenatural da temporada — apesar das dificuldades que Bobby Brown apresentou em relação às suas expressões faciais, dada a perceptível passagem por procedimentos estéticos.
Estão de volta Finn Wolfhard (Mike Wheeler), Gaten Matarazzo (Dustin Henderson), Caleb McLaughlin (Lucas Sinclair), Noah Schnapp (Will Byers) e Sadie Sink (Max Mayfield), acompanhados por Natalia Dyer (Nancy Wheeler), Charlie Heaton (Jonathan Byers), Joe Keery (Steve Harrington), Maya Hawke (Robin Buckley), Priah Ferguson (Erica Sinclair), Brett Gelman (Murray Bauman) e Cara Buono (Karen Wheeler), todos reprisando seus papéis importantes na conclusão da história. Também retornam Jamie Campbell Bower como Vecna e Amybeth McNulty como Vickie, em um papel ampliado.
Para esta temporada final se juntou ao elenco Linda Hamilton (para homenagear os anos oitenta, como Sean Astin no segundo ano) e Alex Breaux , como as novas figuras militares antagonistas; junto dos atores-mirins Jake Connelly (o hilário Derek) e a excelente Nell Fisher (Holly, figura central dos oito últimos episódios).

O elenco e o texto do último ano fazem parte de uma relação simbiótica que visa cumprir as regras das continuações: manter o que deu certo anteriormente e expandir. Se for um desfecho, a expansão costuma mirar na hipérbole, para que seja entregue a sensação de payoff. É o caso, aqui. Vecna está cada vez mais grootificado, o Mundo Invertido e o Abismo estão mais caoticamente belos do que nunca, e quaisquer revelações remanescentes são explicadas ao longo de incontáveis sequências explicativas.
Quase toda cena requer uma personagem que explique com o máximo de verborragia e cafeína a trama aos colegas (a audiência). Esta é, sem dúvidas, a maior diferença do último ano em relação aos predecessores, e o seu verdadeiro ponto fraco. Se antes as revelações que dizem respeito ao Mundo Invertido eram divididas e contadas pouco a pouco, ao longo de cada temporada; na última os criadores precisaram concentrar tudo o que restava, e ela sofreu um pouco com isso.

A temporada também sofreu pelo que sofrem os desfechos de todas as grandes séries: expectativa. Se for seguido o esperado, pode ser vista como clichê; se fugir do esperado… pode ser vista como clichê. Um final feliz pode ser malvisto, e um final triste ou agridoce… pode ser malvisto. E aí, o que difere a conclusão de Stranger Things das de séries como Lost e Game of Thrones é o cerne da obra; a forma como os irmãos Duffer escolheram montar um produto novelesco a partir de clichês, arquétipos, nostalgia e didatismo. A construção de um DNA constituído desses elementos vacinou a obra contra um desfecho que poderia destruir toda e qualquer expectativa.
Sim, o desfecho de Stranger Things é clichê e esperado — inclusive a falsa sensação de final em aberto, recorrente em longas como A Origem e O Cavaleiro das Trevas Ressurge (será coincidência ambos serem de Christopher Nolan?) —, mas se há uma série com permissão para isso, é essa. Quando você come um bolo de aniversário com uma receita tradicional, já sabe o que esperar e pega o seu pedaço já pronto para gostar. Talvez no quinto aniversário com o mesmo bolo você já não sinta a mesma sensação de recompensa… Talvez seja hora de buscar receitas menos tradicionais por um tempo, se for o caso.
Nota: 4/5
