Quem tem a verdade nas mãos pode manipulá-la da forma que bem quiser, ou seria isso que Verity quer que nós pensemos?

Aviso: Contém leves spoilers
Confesso: Eu (ainda) não li o livro. Entrei na sessão de “Verity” sabendo apenas o básico, que era uma adaptação de um best-seller da queridinha do público feminino, Colleen Hoover, que Anne Hathaway e Dakota Johnson se beijavam (obrigada, trailer) e que a internet estava bem dividida entre “uma obra-prima” e “pior filme do mundo”.
Saí com uma sensação esquisita da sessão, não pelo suspense em si do filme, mas por constatar que o filme tenta ser tantas coisas que acaba por não ser nenhuma por completo. Eu sou suspeita para falar, pois sou a maior fã de que livros devem ser adaptados, mas até o momento em que escrevo essa crítica, talvez essa adaptação não esteja à altura do livro, afinal.
A história acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora não famosa que foi contratada para terminar uma série de livros de Verity Crawford (Anne Hathaway), uma autora best-seller que ficou incapacitada após um acidente misterioso. A premissa de suspense e mistério é irresistível. Mas, a execução em si… Um tanto quanto irregular.
O início de tudo: Entrevista, trauma e uma casa que sussurra
O filme abre com uma entrevista de Verity sobre os seus livros. Ela é magnética, afiada, dona da sua própria narrativa. Um ano depois, ela já está acamada, muda, olhos abertos, porém totalmente ausente. Uma filha morta em um suposto acidente, um casamento em ruínas e uma casa que parece respirar e guardar muito mais do que apenas algumas fotos na parede e livros best-sellers como troféus.
Lowen, por sua vez, é-nos apresentada de uma forma leve e brutal, ao mesmo tempo: ela aparece lendo em uma livraria. Logo após, recebe a ligação de seu agente para uma reunião com uma grande editora. No caminho, ela presencia um atropelamento na rua.
Sangue em seu rosto, um trauma quase que instantâneo. É um começo eficiente, que estabelece o tom de instabilidade emocional que vai permear tudo. Uma breve observação: Em alguns momentos é perceptível que Lowen lembra muito a Anastasia Steele, meio sonsa, sem noção de muita coisa e do que é a vida.

Lowen é convidada a morar na casa dos Crawford e encontra o que ninguém deveria encontrar: uma autobiografia escondida. Um manuscrito que se chamarmos de perturbar seria um elogio. No decorrer do filme, ela encontra também uma carta que pode mudar tudo o que sabemos sobre Verity, Jeremy (seu marido) e até mesmo Lowen. E, no centro de tudo, está Verity, a maior mestra em manipular a verdade.
O diretor Michael Showalter revelou que cortou algumas partes importantes do livro. Uma delas é que a protagonista Lowen não é sonâmbula no filme, algo que destrava grandes conflitos na obra original, mas não chegou ao corte final. Essa escolha fez o filme perder uma parte interessante de ambiguidade sobre o que é real ou fruto da mente perturbada de Lowen.
Atuações
Estamos em um ambiente seguro, correto? Sendo assim, podemos ser honestos: Anne Hathaway está impecável como sempre. Seja em seus poucos momentos como uma Verity magnética, dona de si e de sua verdade, e como uma Verity acamada, catatônica (me lembrou muito Fernanda Montenegro em “Ainda Estou Aqui”. Nenhuma fala, mas uma excelente atuação com microexpressões).
Anne (ou Verity) passa a maior parte do filme imóvel, em uma cama ou em uma cadeira de rodas, e mesmo assim ela rouba toda a cena. A forma como ela constrói uma ameaça a partir do seu silêncio, do seu olhar e de um leve inclinar de cabeça é totalmente assustadora.
É Hathaway brincando com a percepção do público, entregando uma Verity que nunca sabemos se é uma vítima ou um monstro manipulador. Nota 10/10, sem discussão.
Dakota Johnson, por sua vez, entrega uma performance morna, que até funciona, mas que não encontra. Ela é Lowen, uma mulher até então frágil, insegura, que acaba se apaixonando pelo marido de Verity, através de seu manuscrito. Eu não sei vocês, mas desde o início da proposta eu já achei Jeremy bem esquisito, mas pelo visto Lowen viu nele o homem da vida dela.
Essa paixão pelo marido da chefe faz com que ela comece a se perder em sua própria fantasia. Dakota até tenta fazer o que pode com pouco que tem, mas há momentos em que a sua apatia característica (aquela mesma de “Cinquenta Tons”) faz parecer que a personagem está entediada, não traumatizada.
E sim, ela parece (e muito) uma Kristen Stewart de franja. A mesma apatia, as mesmas expressões (ou falta delas). Não diria que é uma atuação ruim, mas não é nem de longe uma atuação muito boa. Uma nota 6/10.
Josh Hartnett (Jeremy) até que surpreende ao trazer uma ambiguidade, um mistério e, até a página dois, um marido fiel e um pai amoroso. Mas sabe quando tudo parece “perfeito demais”? Pois é, até o santo desconfia e não me pegou muito.
Desde o início eu sabia que aquele homem seria um problema. E eu não estava errada. No final, ele é o elo entre duas mulheres (perturbadas), e a sua presença é ao mesmo tempo reconfortante e suspeita.
Clima de clássico dos anos 90
Aqui talvez esteja um ponto que pode dividir opiniões. O filme tem muito mais cenas sexuais do que o necessário. Não porque sejam explícitas (o filme não é nem de longe algo pornográfico, apesar de ser restrito a algumas idades), mas porque interrompem o ritmo de forma quase cômica. Sem contar que as cenas sexuais são apenas sexuais, sem muito porquê de estarem ali.

A cena do beijo entre Lowen e Verity, que causou um alvoroço, foi totalmente improvisada pelas atrizes e é, ao mesmo tempo, intrigante e desconfortável. Colleen Hoover revelou que essa cena “não estava no livro” e que, inicialmente, a deixava nervosa, mas “acabou sendo uma das minhas favoritas”. O diretor contou que tudo começou com Anne e Dakota dizendo: “E se, enquanto ela estiver se pegando com ele, a coisa toda se transformar na Anne?”.
Dakota, aliás, disse que foi tudo “tecnicamente desafiador” ao beijar Anne Hathaway por horas. E cá entre nós, eu acredito. Porém, o problema não é a dificuldade técnica, mas a sensação de que o filme usa o sexo como muleta (como muitos filmes por aí) para manter a atenção do público quando a trama, o roteiro e as atuações não conseguem.
O final: Todo mundo é meio sonso e psicopata ao mesmo tempo
Sem entrar em detalhes, o final de “Verity” é um daqueles que não resolve nada. E isso é proposital. O livro é famoso por sua ambiguidade, dividindo os leitores entre o Manuscrito (que acredita que Verity é a psicopata e manipuladora) e a Carta (que acredita que tudo não passou de um exercício de escrita). O filme mantém essa ambiguidade, o que é ousado, mas um tanto quanto superficial.
No final, a sensação que fica é que todo mundo é meio sonso e psicopata ao mesmo tempo. Lowen se apaixona pelo marido (misterioso) de uma mulher em coma. Jeremy é bonito, solícito, mas há algo nas entrelinhas que nos faz ficarmos desconfiados. Verity é… bem, é a Verity.
É claro, Crew, o filho sobrevivente, é uma criança que merece terapia e não um filme. Ah, e não podemos esquecer da cuidadora que, nas entrelinhas, também sabe de muito mais coisa do que ela demonstra saber.
Veredicto
“Verity” não é um filme ruim. Anne Hathaway está excepcional. A atmosfera é densa, mas a pergunta central é: Você confiaria em alguém que só conhece pela versão que ela quer que você veja? É uma das partes mais interessantes. Entretanto, o filme corre demais e se perde nas cenas sexuais desnecessárias, o que para alguns é arte, para outros é mais uma frustração.
Se você não leu o livro assim como eu, e vai assistir ao filme, talvez saia com a sensação de que perdeu algo. Se você leu, talvez saia com outra sensação. De qualquer forma, é um daqueles filmes que você precisa ver com os amigos, nem que seja para ter alguém com quem reclamar depois.
Nota 3/5
3 Estrelas ⭐⭐⭐
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