Quando um crime é cometido por um familiar, como saber o que é lealdade e o que é conivência? Precisamos Falar sobre isso

Há alguns crimes que começam com explosões em caixas eletrônicos e há crimes que começam muito antes – no berço, na mesa de jantar, na educação de quem acredita que o mundo é particular, uma propriedade privada e muitos vivem de favor, ou até mesmo nem deveriam viver.
Precisamos Falar, novo drama de suspense brasileiro, estrelado por Marjorie Estiano e Alexandre Nero, é exatamente sobre os dois personagens e sobre o silêncio que se segue.
O filme, que estreia em 24 de setembro nos cinemas brasileiros, é uma adaptação do best-seller holandês “O Jantar”, de Herman Koch, do qual o livro se baseia em um caso real: uma mulher em situação de rua morreu quando o caixa eletrônico em que dormia para se proteger do frio e da chuva explodiu, após um artefado de fogos ser jogado contra ela por adolescentes, em Barcelona, no ano de 2005.
A versão brasileira de Precisamos Falar, dirigida por Rebeca Diniz e Pedro Waddington e roteirizada por Sergio Goldenberg, enraiza a história em solo nacional com uma precisão tão dolorida quanto perceber a realidade em que vivemos.
O crime que começa tudo e o que ele revela
O filme abre com imagens de celular. Três adolescentes – Michel (Thiago Voltolini), Rick (Guilherme Cabral) e Jefferson (Cauê Campos) – aparecem perto de um caixa eletrônico, onde dorme uma mulher. Antonia, uma imigrante venezuelana de 35 anos. Um deles começa a ofendê-la, joga lixo nela e, em seguida, explode uma bomba no local. Os adolescentes fogem. A mulher morre.
Michel não sente absolutamente nada. Ele filma tudo e exibe em suas redes sociais com títulos de “Libertação” em seus conteúdos semelhantes. Há claramente um leve indício de psicopatia ali, uma desconexão emocional que faz o crime parecer apenas uma “travessura de criança”. Mas o filme, de forma totalmente sábia, não o trata como um monstro sobrenatural. Como o próprio ator Thiago Voltolini disse em entrevista recente: “Ele não é um psicopata, mas fruto da criação desses pais, dessa bolha, e isso o deixa ainda mais assustador, porque ele é real.”
Dilema Moral
Os pais se encontram para jantar. De um lado, Sandra (Marjorie Estiano) e Paulo (Alexandre Neto), pais de Michel. Do outro lado estão Anna (Hermila Guedes) e Celso (Emílio de Mello), tios do menino e pais de Rick e Jefferson – esse último, o filho adotivo negro que assistiu ao crime sem poder impedir.
Paulo e Celso são irmãos e são do tipo que nunca se entenderam muito bem. Paulo é um professor reacionário, afastado da universidade após uma confusão com uma aluna. Celso é um político de ideias progressistas, candidato a governador do Rio de Janeiro, o favorito nas pesquisas. O crime aconteceu às vésperas da eleição.
A pergunta que mais se é feita durante todo o filme é simples e complexa ao mesmo tempo: Entregar os filhos à polícia ou enterrar a verdade?

Paulo já tem sua decisão, assim como Sandra. Paulo está disposto a comprar testemunhas: “Posso encontrar meninos pobres que assumam o crime”, diz, como se estivesse discutindo um cardápio. Por outro lado, apesar de decidida, Sandra está rasgada por dentro.
Marjorie Estiano constrói uma mãe que ama o seu filho, que o protege, que tem defeitos de caráter, mas que começa a enxergar aos poucos o tipo de pessoa que o próprio filho se tornou. Ela sofre, hesita. Uma atuação devastadora.
Retrato de um Brasil que não quer olhar o próprio reflexo no espelho
O que diferencia essa adaptação de Precisamos Falar é o contexto brasileiro. Não estamos falando de países distantes. Estamos falando de um país onde esse tipo de crime com pessoas em situação de rua está normalizado e se tornou algo “comum”.
Um país onde um líder indígena chamado Galdino Jesus dos Santos, da etnia Pataxó-Hã-Hã-Hãe, foi queimado vivo enquanto dormia em um ponto de ônibus, em Brasília no ano de 1997, por cinco rapazes de classe alta que alegaram e compararam o crime a uma “brincadeira”. O detalhe: Galdino não era uma pessoa em situação de rua; estava apenas de passagem.
Estamos falando do mesmo país em que, no ano de 2012, Thor Batista, filho de Eike Batista, um empresário famoso, atropelou um ciclista por dirigir em alta velocidade. O criminoso ? Absolvido em 2015 por “considerarem as provas da acusação duvidosas”.

No caso de Precisamos Falar, a família de Michel já destila o seu racismo, xenofobia e preconceitos a cada frase dita – e sempre foi assim. E como uma boa família tradicional brasileira, há armas em casa. A mesma arma que, em um determinado momento do filme, é utilizada para ameaçar o primo adotado, sem antes, é claro, novamente ofender a sua origem e seu tom de pele.
Uma outra frase que ecoa é: “A moral e a ética que vocês tanto pregam são somente do muro de casa pra fora”. Porque, afinal, dentro de casa tudo é permitido, tudo é bonito e bem aceito por essa família. O privilégio branco e de família de classe média alta é uma armadura.
Jefferson, o filho adotivo, negro, é tratado como um ser inferior pelo primo branco. É a única pessoa que tentou impedir a violência. Sofreu bullying por essa parte da família desde pequeno. E ele é, talvez, um dos únicos personagens com alguma decência real no meio daquele banquete de horrores.
Veredicto
Precisamos Falar não tem exatamente um final claro. E isso é perfeitamente proposital. A sensação que fica é de impotência e impunidade. A famílai decide. A família acoberta. A família segue em frente com o criminoso se tornando vítima. Porque, afinal, é sempre assim.
O roteiro tem leves tropeços — é pequeno e sem contexto em alguns momentos; em outros, é extremamente televisivo. Alexandre Nero claramente está sempre um tom acima do resto do elenco, e a caricatura do seu personagem às vezes beira ao exagero, mas, infelizmente, é cada vez mais real, afinal, conhecemos um tio, um primo que é exatamente assim em sua mais pura essência. Entretanto, a força temática compensa. É um thriller psicológico que funciona menos pelo suspense e mais pela tensão moral que o rodeia.
Hermila Guedes e Marjorie Estiano são outro grande destaque – o contraste entre o discurso ponderado e sensato de Anna e as barbaridades normalizadas por Sandra cria um dos momentos mais tensos (e curiosamente, mais engraçados de tão absurdos) do filme.
Precisamos Falar é desconfortável, necessário e profundamente brasileiro. Você não está esperando o assassino aparecer; você já sabe quem é, mas está à espera da decisão dos pais. E no fundo, bem no fundo, você já sabe qual será a decisão.
Nota 5/5
5 Estrelas ⭐⭐⭐⭐⭐
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